A algum tempo percebi uma dinâmica um tanto perigosa que acontece nas empresas que demandam software via fornecedores internos ou externos. Isso engloba praticamente todo o mercado corporativo, mas deixa de fora empresas que desenvolvem software de prateleira. O que vou escrever a seguir trata deste primeiro tipo de empresa.

Sempre que um departamento precisa de um sistema, ele precisa demandar este sistema para alguém. Seja a demanda repassada para um departamento de TI interno, ou para um terceiro, o foco com razoável frequência costuma ser custo. Quando o departamento é interno estamos falando de rateio baseado em horas internas de outro departamento da empresa, então a discussão é em torno de horas. Quando a demanda vai para fora da empresa a discussão é financeira. Grandes empresas mantém departamentos de compras responsáveis por comprar desde toner para impressora e papel higiênico quanto software, e o tom, principalmente em tempo de crise, é comprar focado em preço. Para se proteger as empresas geralmente apostam em especificações e estimativas bem feitas (algo que não existe), e SLAs. Assumindo que a especificação determina o que vai ser entregue, faz sentido que o critério seja preço. Quer dizer, faria sentido se software não fosse software. Comprar software assim é como comprar serviços de advocacia por preço. Você faria isso se estivesse em uma enrascada? Arriscaria seu pescoço? E porque então arriscamos o dinheiro das empresas?

Invariavelmente os fornecedores, sejam eles internos ou externos, vão ter que baixar o custo para atender o cliente, que quer uma Mercedez pelo preço de um Fusca. Frequentemente o cliente simplifica o escopo ao máximo, a fim também de baixar o preço, e remove itens fundamentais a qualquer software. De cara morrem coisas "inúteis" como log de erros, por exemplo. Design gráfico também costuma nem entrar no projeto. Outros itens, de tanta falta de demanda, às vezes nem são oferecidos pelos fornecedores. Coisas "inúteis" como análise estática de código, integração contínua, e claro, uma análise arquitetural e/ou um arquiteto acompanhando o projeto. Afinal, essas coisas "inúteis" só acrescentam custo e não valor (atenção para a ironia). Então o cliente fala que não vai pagar por isso.

Porque isso acontece? Pois é, foi isso que eu descobri. Talvez vocês já saibam, mas para mim foi algo que de certa forma estava na minha cara, mas eu nunca tinha parado para ver.

A questão é simples: quem paga pelo software e quem paga pela manutenção? É muito frequente que o cliente final pague pelo desenvolvimento do projeto, mas não pelas pequenas manutenções subsequentes. O dinheiro sai do seu centro de custo somente no nascimento do projeto. Quem paga as manutenções geralmente é TI, que mantém uma equipe de suporte, alocada no seu centro de custo, debaixo do seu budget.

Esse fato leva o cliente a pedir o software mais barato possível. Os problemas e necessidades que vierem depois são resolvidos "de graça", ao custo do departamento de TI. E como o software foi feito de qualquer jeito, a manutenção é muito cara, o que leva a equipe de suporte a inchar cada vez mais, ou entregar cada vez menos valor. Quem disse que não existe almoço grátis?

Não é a toa que os CIOs são tão criticados por não entregar valor. Cerca de 80% do custo de TI vão para manutenção, e devido a essa dinâmica, uma manutenção cara que se originou nos próprios incentivos dados por TI.

Como eu disse no começo, essa é uma dinâmica perigosa, já que os custos do projeto são muito maiores do que o planejado, e o software não é feito para durar, mas para sair de qualquer jeito. E o trabalho do arquiteto é justamente fazer software para durar.

Gostaria de saber se isso é uma visão particular das minhas experiências ou se vocês confirmam esta visão. Comentários são muito bem vindos.


Postado na(s) categoria(s) Gestão de projeto , Arquitetura pelo giovanni bassi em 17 de junho de 2009 às 01:39 | Tags: ,

Comentários


junho 17. 2009 12:41
Evilázaro
Fala Giggio,

O impressionante é que, eu estava num jantar com um cliente ontem e ele me argumento exatamente isto que, desenvolveram um projeto de eGov de uma forma não estruturada e hoje, após 5 anos do projeto, a manutenção do mesmo já está ficando insustentável o que fez com que, a empresa começasse a avaliar a possibilidade de refazer parte do projeto pra que viabilize em termos de custo de manutenção.

Um forte abraço.

Evilázaro Alves
Diretor de Tecnologia Br Soluções Integradas
Microsoft Student Partner Mentor
Microsoft Certified Technology Specialist - MCTS
Microsoft Certified Business Management Solutions Specialist - MCBMSS
Microsoft Certified Professional - MCP
WCF Brasil - http://www.wcfbrasil.net
http://www.evilazaro.net

http://www.evilazaro.net/http://www.evilazaro.net/


Brazil Vagner de Araujo
junho 17. 2009 12:45
Vagner de Araujo
Estou plenamente de acordo.
Há casos em que a recorrência ao suporte é tão intensa, que empresas fornecedoras de software, passaram a criar um serviço pago de manutenção.
Se você for um cliente pagante, espera menos pelo suporte, caso contrário, irá ficar na fila do SUS e para alguns casos não haverá suporte.
Eu tive uma rusga séria com a Borland, na época em que ela era detentora do Delphi.
Os caras queriam que eu comprasse um update que corrigia as falhas do produto, ou seja, eu estaria pagando duas vezes para que eles fizessem o trabalho que já deveriam ter feito.

no site


junho 17. 2009 12:49
Ubiratan Padilha
Fala, meu amigo, Giovanni.

Pegando um gancho do seu exemplo citado acima, digo que o cliente quer uma Mercedez por preço de um Fusca e no final paga 2 Mercedez e recebe um carrinho de supermercado (com motor, retrovisor, câmbio...).

Acho que o cliente sempre pensa em custo porque a visão financeira é que move a empresa - desde a fundação. Entretanto, conceitos como o do Balanced Scorecard - e nem vou falar de agilidade, Scrum etc - por exemplo, foram escritos para mostrar às empresas que outras visões são tão importante quanto à financeira para que os objetivos estratégicos sejam dissiminados por toda a organização e passem a ser incorporados às metas de todas as áreas.

Mas ainda há uma resistência muito grande de mudar a forma de pensar. E não me parece que estamos próximos de uma mudança substancial do mercado. Até porque as pessoas são resistentes na sua concepção.

Ou seja, vejo que teremos ainda pouquíssimas empresas (para não dizer, sempre) quebrando paradigmas e se adaptando aos novos conceitos e forma de interação com seus clientes internos e externos, como Google, Globo.com...

O Eistein esteve a frente do seu tempo quando escreveu a Teoria da Relatividade. E, se bobear, ele está a frente até hoje - pois muitos ainda não entenderam parte do que ele conceituou. Para citar outro nome, Sócrates nunca esteve tão na moda. E por aí vai.

Então, meu caro Giggio, nossa forma de pensar hoje (minha, sua e de muitos companheiros), sem querer ser presunçoso e pretencioso, pode estar muito a frente do nosso tempo e da nossa geração. Coisas que pensamos, escrevemos e aplicamos hoje, podem demorar anos, décadas para ganharem escala ou mesmo nem serão aplicadas - não como são hoje - pois sofrerão modificações, adaptações, ou perderão o sentido de existirem.

Abraço,

Ubiratan Padilha
Project Manager, CSM, Especialista em Usabilidade
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